agora, passados quase cinco meses, parece-me impossível que tenha tido a coragem de me aventurar naquela ponte de vidro. quando comprei o bilhete peguntei à senhora, que me atendeu, se aquilo era mesmo fantástico, ao que ela respondeu que sim. e, de seguida, quis saber se ela já tinha lá estado, quiçá esperando encontrar alguém em quem fizesse ressonância o meu pânico. e ela, com um sorriso, respondeu-me: vou lá todos os dias de manhã. sou eu que faço a limpeza do vidro! 
a sensação que experimentei, no momento em que me encontrei à beira de colocar o primeiro pé no vidro, ainda hoje é extremamente vívida. a primeira volta foi junto aos corrimões, que é onde tem uma estrutura de ferro por baixo. mas depois aventurei-me no vidro. é estonteante. eu sentia que a qualquer momento o chão me fugiria dos pés e eu seria sugada pelo espaço até lá ao fundo, e eu ali sozinha (salvo seja, que andavam lá mais pessoas com receio igual ao meu). foi muito difícil. mas foi muito bom tê-lo feito. só de ver as fotos, voltei a arrepiar-me. sentiria o mesmo receio se lá voltasse. mas faria tudo novamente.

[a simbologia das coisas é muito interessante. às vezes dolorosa, mas interessante.]