quando comecei a jogar futebol, houve logo duas coisas que eu soube que jamais gostaria de ser: treinadora e jogadora profissional. mais tarde, quando fui dirigente, percebi que também jamais gostaria de ser dirigente de um clube profissional.
não é que eu não gostasse de organização e que, bastas vezes, rezei para que houvesse mais dinheiro para as deslocações e não só. mas o encanto do improviso, o colocar balizas à última hora, o chegar ao clube e não haver balneários disponíveis, toda essa ginástica que não raras vezes é preciso fazer quando se está no desporto amador.
isto tudo vem a propósito de um torneio de futebol feminino que fui assitir no sábado. inicialmente, ía para ver um jogo entre duas equipas com jogadoras que conheço há muito, e acabei por ficar até às sete e tal da tarde. muito concorreu o facto de ter podido estar com pessoal que não vejo bastas vezes, e depois toda a envolvência dos jogos e o que está por detrás deles: as jogadoras, os treinadores, os massagistas, os dirigentes, os seccionistas, a parafernália habitual – no meu sangue ainda corre muito de todo aquele folclore…
fiquei particularmente fascinada com uma equipa em prova. não pelo desempenho em campo, embora também, visto terem atingido a final, mas pela sua imensa capacidade auto-organizativa. perante a indisponibilidade dos treinadores, a quase ausência de dirigente, a inexistência de massagista, assumiram o seu desejo de participarem no torneio. pelo que percebi, meteram mãos à obra, reuniram o máximo de jogadoras possível, treinaram, e no dia do torneio lá estavam. com lanche previamente preparado e tudo. para quem não sabe, isto não é coisa fácil de operacionalizar. muito menos, quando se está habituado a ter as pessoas certas nos seus sítios, a saber: ter um treinador que oriente a equipa, um dirigente que organize a logística, etc, etc.
a última imagem que retenho, quando saí, era de um grupo de jovens e alegres jogadoras, em conjunto na bancada, com o estendal dos seus pertences todo montado: camisolas de jogo a arejarem no varão, que delimita o terreno de jogo, garrafões de água, sacos com maçãs, bananas, sandes, mais os sacos individuais. esperando tranquilamente o decorrer dos jogos que faltavam até à final – a final que elas iriam disputar.
não nego que, naquele tempo todo, estive imensas vezes tentada a dar uma mãozinha – não se preocupem com as horas que eu chamo-vos, eu preencho as fichas de jogo, etc, etc. coisa extremamente fácil para mim, apesar da distância de cinco anos. resisti à tentação, porque doutro modo, elas não teriam hoje o orgulho de poderem dizer que estiveram lá e que se safaram muito bem. e principalmente, porque toda aquela experiência de um dia inteiro juntas, sob a pressão dos jogos, a fadiga, lhes vem demonstrar à saciedade que o espírito de grupo, a vontade de concretizar, o querer, são das coisas mais inestimáveis no desporto. e que, aproveitando essa vivência de um dia por sua própria conta, em que conseguiram ultrapassar vários obstáculos, podem sonhar com desempenhos muito positivos quando a competição a sério começar.
a experiência do torneio pode muito bem servir de bandeira. não para pensarem que não precisam de mais ninguém, mas para confirmarem que, em equipa, a união é muito valiosa. porque quando se está dentro de campo, e as coisas estão a correr menos bem, há forças que só se encontram dentro de nós, ou junto das colegas que ali estão. o banco de suplentes torna-se uma coisa muito distante, embora que à vista desarmada pareça estar logo ali.

perante este relato, haverá quem diga que sou louca, ao preferir este contexto, ao invés do conforto organizativo e monetário que os profissionais têm. há coisas que só entende, quem experimenta. e as dificuldades aguçam-nos a criatividade e o desempenho. boas molas para a vida.

parabéns às jogadoras do Odivelas!