somos diametralmente opostos, embora de gerações coincidentes – separam-nos dois anos, coisa que neste idade não tem relevância nenhuma. tem coisas que às vezes só me apetece bater-lhe. mas é muitíssimo divertido, com um humor extremamente inteligente e com uma capacidade de improviso que nos dispõe bem.
é de família bem, do tempo em que bem rimava com educação.
dá beijinho ao irmão, quando se cumprimentam.
e chora.
está aqui ao lado, de olhos vidrados de lágrimas, porque o pai foi internado de urgência e não está nada bem.
eu… nem lhe digo nada. quando se está assim, o que queremos é que nem digam nada, senão a malta desfaz-se em pranto. fiz-lhe uma festinha no cabelo, mas a minha vontade é de abraçá-lo e dar-lhe colo.
e estou aqui toda amarfanhada. invariavelmente, nestes casos, projecto-me. não há como. e penso, penso, penso. fantasio aquilo que é ridículo fantasiar, porque não há forma de saber se viverei esses momentos. e fantasiar a tristeza é, para além de mórbido, um exercício muito doloroso.
a doença. o sofrimento. a perda. a ausência. a morte. coisas tramadas.
e nem adianta pensar em fazer terapia, novamente, para me preparar para tudo isto, ou só uma parte, porque estou farta de ouvir dizer que, por muito que se esteja à espera, nunca se está suficientemente preparada.